Tropicália 83: É doce morrer no mar
Publicado em 14 de Fevereiro de 2010 às 14:40 por CRCC (31 posts publicados no bGW)
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Olá a todos! 

Muitos não saberão, provavelmente, que o título do artigo de hoje é o título de uma música de um artista chamado Dorival Caymmi. Menos ainda saberão que este é baiano e o criador da música, esta talvez mais conhecida, “O que é que a baiana tem?”. 

  

É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
 

A noite que ele não veio foi,
Foi de tristeza pra mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi pra mim
 

Saveiro é um pescador, é um profissional. 

Troquemos os nomes, troquemos a profissão. Chamemos-lhe Flair, se assim o quisermos. Consideremo-lo wrestler, pois assim é-nos imposto pelos anos que Flair, o profissional, se dedicou ao wrestling, sem férias, sem descanso, lesionado ou são, porquê? 

Saveiro era marinheiro. Saveiro teve de partir,era sua obrigação para com sua família, presumo, era seu ganha pão, aposto. 

Flair era wrestler. Flair tinha de subir ao ringue, era sua obrigação para com seus fãs e para consigo mesmo, era sua maneira de sustentar seu luxos. 

Saveiro lá ficou, amarrado ao seu destino, partiu e não voltou. 

Flair regressou e, por opção própria, podendo encalhar sua embarcação na praia para não mais voltar, preferiu regressar. 

E porquê regressou? 

Alguns apontam que, tal como Saveiro, simplesmente voltava a partir para o ringue, de maneira a sustentar a vida que cultivara, ou para achar maneira de acertar sua situação com o fisco ou as pensões que terá de pagar, fruto de aventuras mal pensadas. 

Mas existe algo mais. Utilizo da minha liberdade de fantasiar, para depreender que Saveiro escolheu se prender ao mar por algo mais, algo que não conseguiu explicar, como se o vai-e-vem das ondas do mar fosse explicação suficiente para ir se afogar. 

Também para Flair depreendo, ou quero acreditar, que existe algo mais. Escolheu voltar ao círculo quadrado por algo mais. Desejou voltar a se matar entre 12 cordas. Escolheu ser, por tolos, contestado, tolos que teimam em esquecer os anos de dedicação e simplesmente não aceitam que existe algo mais além dos cheques e dos milhares. 

Quem condena o pescador que ama o mar que lhe mata? 

Quem pode condenar o homem que ama o ringue que lhe afaga o coração e pesa o bolso? 

Quem confunde a falsa prostituição com idílico amor? 

 

É doce morrer no mar,
Nas ondas verdes do mar
 

Saveiro partiu de noite, foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
Sereia do mar levou.
 

Troquemos o nome, mais uma vez. 

Troquemos o “marinheiro bonito” por um sorriso bonito, pois essa era a característica inegável de Owen Hart, citada por todos seus amigos. 

Owen que se enquadra na categoria de Saveiro e na de Flair, ao mesmo tempo que se distancia um pouco do último. 

Owen é mais pescador, apesar de não duvidar de seu coração de marinheiro apaixonado. 

Owen gostava de partir para o ringue, como Saveiro gosta de apontar seu velho barco ao mar. Porém, como Saveiro não escolheu se afogar, Owen não desejava ficar-se morto no ringue. 

Assim, numa noite, partiu Blue Blazer para seu vôo fatal. Restou Owen Hart, para dormir no colo do “deus de quatro lados”. 

Dedicou sua vida a sua arte e morreu abraçado nela.

 

 

É doce morrer no mar,
Nas ondas verdes do mar
 

Nas ondas verdes do mar, meu bem
Ele se foi afogar
Fez sua cama de noivo
No colo de Iemanjá
 

Iemanjá, rainha do mar, criada pela fusão da cultura africana com a raíz indígena brasileira. 

Rainha do mar que acolhe em seu colo os que em seus cabelos vão se afogar. 

Também merecerá o wrestling, vasto como o mar, agitado como as ondas e incerto como as marés, ter seu rei. 

Seu rei será alguém que lhe ordena, que cria e depois toma o que, acredita, ser seu por direito. 

Seu rei é aquele que, segundo o que acha justo, tem por poder a criação e a destruição. 

Aquele que fez imortal, no mar quadrado de seu reinado, Hulk Hogan, The Rock, Stone Cold, HBK, HHH, aquele que foi generoso a esse ponto. 

Aquele que, generoso, sabe chamar a si mesmo, os que já não aguentam e vão descansar. Assim chamou Owen Hart, assim convocou Eddie Guerrero. 

Aquele que, cruel, vê com bons olhos destruir quando lhe parece justo. Assim condenou Bret Hart, Ultimate Warrior, Eric Bischoff e Ted Turner, entre tantos outros. 

Aquele que reina, aquele de quem tudo se espera. 

Aquele que se chama Vince McMahon. 

Até a próxima! 

 

 

 

 

 

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